Terça-feira, 27 de outubro de 2026 · Salvador, BA

Análise – One Piece: Grand Gourmet

Minha história com o universo de Eiichiro Oda começou em 2022, quando resolvi abrir as primeiras páginas de One Piece e fui completamente engolido por aquele mundo. Consegui a proeza rara de fazer a leitura inteira praticamente blindado de spoilers, vivendo cada virada com o impacto que ela merecia. Ri, chorei de verdade em vários…

Minha história com o universo de Eiichiro Oda começou em 2022, quando resolvi abrir as primeiras páginas de One Piece e fui completamente engolido por aquele mundo. Consegui a proeza rara de fazer a leitura inteira praticamente blindado de spoilers, vivendo cada virada com o impacto que ela merecia. Ri, chorei de verdade em vários arcos e aprendi a amar aquela tripulação a ponto de carregar essa paixão na própria pele, com uma tatuagem do Luffy devorando um acarajé no meu braço esquerdo. Desde que alcancei os semanais, a leitura virou ritual sagrado de toda semana, um entusiasmo que só aumentou quando a Netflix surpreendeu todo mundo com um live action excelente, acertando em cheio na dosagem da esquisitice tão única do autor.

É desse lugar de fã devoto que recebi a notícia de que a Kairosoft estava lançando One Piece Grand Gourmet para mobile, PC e Nintendo Switch. Acontece que, além do amor pela obra, eu já tinha um histórico longo com os simuladores da desenvolvedora japonesa e sabia perfeitamente o tipo de loop de gameplay hipnótico que eles sabem construir. Por isso, quando o anúncio revelou um elenco com mais de 400 personagens para gerenciar, o impacto foi imediato. Juntar um dos meus universos favoritos da ficção com a dobradinha de culinária e simulação de gerenciamento, dois gêneros que sempre me pegam com facilidade, pareceu uma encomenda feita sob medida para me fazer perder completamente a noção do tempo.

Antes de entrar no restaurante propriamente dito, vale colocar uma pulga atrás da orelha logo de cara: o preço de R$ 80 é salgado, principalmente se comparado ao padrão histórico dos títulos da Kairosoft. A mordida no bolso, no entanto, é amenizada por um detalhe que faz toda a diferença para o público brasileiro, que é a localização completa em português: um cuidado essencial para um jogo que vive de textos, piadas e descrições minuciosas. Superada a barreira da etiqueta, o que temos em mãos é uma engrenagem que sabe como fisgar o jogador (entendeu a piada com pescaria?).

A premissa coloca você no comando de uma espécie de “puxadinho” do Baratie, o lendário restaurante flutuante dos mares, com a missão direta de saciar a fome de quem passa pela porta. O loop de gameplay gira em torno de equilibrar essa rotina de cozinha e salão com expedições de exploração: você monta equipes com Luffy, Sanji e outros companheiros para desbravar cenários, coletando ingredientes frescos e manuais de receitas que são desenvolvidos com a ajuda direta de figuras icônicas da saga. A grande sacada do jogo, contudo, está na forma como ele costura o gerenciamento com a imensidão do elenco. Cada um dos mais de 400 personagens possui um pedido gastronômico bem específico e, ao acertar em cheio no prato, você os transforma em fãs leais e até mesmo em funcionários para o seu negócio, desbloqueando mobílias, decorações e melhorias que elevam o conforto geral do espaço. Essa dinâmica abre margem para criar áreas temáticas personalizadas, o que se torna obrigatório conforme o restaurante cresce, já que lendas como Mihawk, Kaido e Big Mom não pisam em qualquer esquina: eles exigem níveis altíssimos de satisfação e sofisticação no ambiente antes de darem as caras para provar a sua comida.

O prato principal para quem acompanha a história, no entanto, é o festival de fan service embutido nas miniquests de expedição. Cada incursão é diretamente inspirada nos arcos canônicos, e o jogo recompensa o conhecimento prévio da obra: se você levar o personagem narrativamente certo para a região certa, como escalar a Nami ao revisitar Arlong Park, uma leva inédita de visitantes é liberada para frequentar o salão. Quem já tem a cronologia na ponta da língua praticamente elimina a necessidade de backtracking para alcançar os 100%, embora o próprio jogo seja generoso com quem não lembra de tudo: caso você erre a formação na primeira tentativa, ele entrega a dica de quem precisa ir no grupo.

Para quebrar a rotina das panelas, as expedições contam até com um minigame de combate em turnos, que funciona como a clássica entrevista de emprego do mundo pirata, na qual você precisa convencer novos funcionários a vestirem o avental na base da porrada franca. E no meio desse caos gastronômico de mais de quatrocentas bocas para alimentar, não haveria figura mais óbvia para carregar o peso do enredo nas costas: Sanji assume o posto de maestro absoluto da cozinha, sendo o grande responsável por colocar a mão na massa e preparar cada prato que sai para o salão.

No fim das contas, One Piece Grand Gourmet entrega exatamente o que quem conhece a Kairosoft já espera: um simulador acolhedor, sem aquela obsessão por complexidade ou necessidade de fazer min-maxing cirúrgico para ver as coisas funcionarem. E, para a proposta do estúdio, tá tudo bem ser assim. O problema real reside no ritmo truncado com que essas mecânicas são jogadas na tela. O jogo atropela o próprio jogador ao despejar uma quantidade sufocante de informações logo nas primeiras horas, transformando a rotina numa maratona de fechar popups incessantes antes de conseguir, de fato, jogar.

Para piorar essa fricção, a experiência esbarra em um contraste incômodo de design. Se por um lado as animações em pixel art são absolutamente adoráveis e transbordam o carisma tradicional da desenvolvedora, por outro a interface é tenebrosa, confusa e pouco ergonômica, o que pesa consideravelmente quando lembramos do preço salgado cobrado na etiqueta. Ainda assim, mesmo tropeçando na apresentação e no ritmo, o saldo permanece no campo da diversão honesta. É o tipo de título leve que garante por volta de 18 horas para zerar experimentando quase tudo e passa tranquilamente das 20 horas na mão de quem faz questão de completar cada canto do salão. Vale a viagem pelos mares de Oda, mas chega à mesa com ressalvas evidentes.


Nota: 6/10 · Análise de: David