Terça-feira, 6 de outubro de 2026 · Salvador, BA

Protestos estudantis na França: escolas fechadas, milhares de detidos e perdas de € 7 milhões

A França vive sua maior onda de protestos estudantis em décadas, com escolas fechadas, milhares de detidos e prejuízos milionários. O que começou como uma reivindicação por melhorias na educação virou uma crise nacional que desafia o governo. #França #Protestos #Educação

protestos estudantis na França

Uma escola pública de nível médio nos subúrbios parisienses foi o gatilho: lá, a carência de professores e de infraestrutura fez os alunos se articularem. Ninguém, contudo, antecipava o tamanho que a reação dos estudantes tomaria — ela se transformou na maior onda de protestos estudantis que a França presencia em décadas. A mobilização se espalhou velozmente pelo território nacional e, neste momento, reúne milhares de alunos, docentes e agentes de segurança.

Ao longo das manifestações, centenas de colégios e liceus suspenderam atividades ou tiveram o dia a dia modificado. Segundo as forças de segurança, já passam de 5 mil as detenções registradas, e a maior parte dos detidos é formada por adolescentes sem antecedentes. Só em uma única jornada, aproximadamente 2 mil pessoas acabaram conduzidas sob custódia.

Os confrontos também deixaram feridos. Segundo os depoimentos, um estudante de Lens, no nordeste da França, perdeu uma das mãos ao manusear um artefato explosivo. Em Tours, um outro rapaz ficou cego de um olho. Professores e membros das forças de segurança também saíram machucados das refregas.

Publicações que viralizam nas redes sociais mostram alunos ateando fogo em lixeiras, montando barricadas e entrando em confronto físico com policiais. Em Alençon, as gravações flagraram um agente desferindo um “mata-leão” numa jovem — golpe vetado pela legislação francesa. Para os manifestantes e para parte da esquerda, o governo opta pela repressão; já as autoridades saem em defesa da ação policial diante da depredação e dos embates. Só na Grande Paris, os danos materiais às escolas alcançam € 7 milhões, o equivalente a cerca de R$ 39 milhões.

De início, o Executivo escolheu culpar a participação do La France insoumise (LFI), partido de Jean-Luc Mélenchon, nas manifestações. Em resposta, a legenda saiu em defesa da prerrogativa dos alunos de se manifestarem. Conforme a violência se intensificava, o Estado passou a agir com mais severidade.

Na sexta-feira (2/10), o ministro da Educação, Édouard Geffray, recebeu lideranças estudantis, mas as partes não chegaram a um entendimento. O movimento então convocou uma nova jornada nacional de mobilização para esta terça-feira (6/10).

Esse clima de ebulição se sobrepõe ao aperto nas contas do Estado. Para aprovar o orçamento de 2027, o governo precisa administrar um déficit da ordem de 5% do PIB, o que obriga a cortes e reduz o espaço para investir mais em educação.

O episódio atual traz de volta o fantasma de Maio de 1968, quando a mobilização dos estudantes acabou por deflagrar uma paralisação geral do país. Passados mais de cinquenta anos, as bandeiras são outras, mas os jovens retornam às ruas cobrando algo básico: condições melhores para aprender. A que começou como demanda por professores e verbas se transformou em uma crise de alcance nacional, na qual se cruzam a educação, a segurança, as finanças públicas e a briga política.

LEIA MAIS: