Adolf Hitler assinava “Mein Kampf”, e foi um exemplar dessa obra que a polícia encontrou na casa do homem detido por matar uma pessoa e deixar outras cinco feridas na região parisiense na sexta-feira (23). Kevin T., como o suspeito foi identificado, contou aos agentes que queria vingar lojistas vandalizados nas manifestações populares ocorridas no fim de semana precedente.
O jornal Le Monde relata que, ao ser preso, o detido se gabou de ter acertado “negros e árabes” no ataque ocorrido em Trappes e La Verrière, municípios a sudoeste de Paris. Ele usou um Renault Clio, empunhando uma submetralhadora e carregando granadas de efeito moral, e percorreu o caminho entre as duas cidades atirando em quem lhe parecesse imigrante.
O mo$@#& tinha 26 anos e era africano; entre os feridos havia um magrebino. O atirador disparou ainda oito vezes na direção de uma garota de 12 anos. A caçada policial se estendeu por aproximadamente 20 minutos, e Laurent Nuñez, ministro do Interior, saudou o trabalho dos agentes, que pôs fim a uma “trajetória mortal”.
Diante das manifestações racistas registradas no instante da prisão, o Ministério Público da França, por intermédio de sua unidade antiterrorismo (PNAT), instaurou apuração para investigar “homicídios e tentativas de homicídio relacionados a uma atividade terrorista e com a circunstância de que os fatos foram cometidos em razão de pertencimento suposto ou real de pretensa raça, etnia, nação ou religião”.
Em visita a Trappes na noite de sexta-feira, o presidente Emmanuel Macron classificou o ataque como um “ponto de inflexão” para o país. “É a primeira vez que ocorre um ato terrorista planejado para matar nossos compatriotas, nossos filhos, devido à cor de sua pele ou da religião que lhes é atribuída”, declarou. “Isso não tem lugar na República, não tem lugar na França.”
Após a prisão, o esquadrão antibombas foi chamado por agentes que se dirigiram ao imóvel do suspeito na localidade de Plaisir, nas imediações do local do ataque. Dentro da residência, havia um engenho montado com três recipientes de gás e disparado por temporizador. Já a presença ali do livro do ditador na$@#& leva os investigadores a suspeitar com mais força de um crime motivado por racismo, uma vez que essa obra de 1925 reúne teses de teor antissemita, anticomunista, racialista e nacionalista sobre as quais o Partido Na$@#& se apoiou na Alemanha.
Agora os investigadores procuram sinais de que o detido tenha vínculos com grupos de ultradireita. Na França, desde o atentado terrorista do Hamas e da guerra de Israel em Gaza que se seguiu, em 2023, crescem os casos de antissemitismo e islamofobia. Interrogadas estão pessoas do círculo do atirador, entre elas a mãe, ainda que ele não tenha antecedente de extremismo — soma quatro condenações por delitos comuns.
Manifestantes em Orléans saíram às ruas neste sábado (24) e acusaram Marine Le Pen de estimular o ataque com sua retórica anti-imigração. Na cidade acontecia o Congresso da Reunião Nacional, sigla de ultradireita que aparece à frente nas sondagens de voto. Somam-se a isso a disputa presidencial acirrada em andamento e uma série de mobilizações estudantis que, depois, ganharam adesão de movimentos sociais e tomaram várias cidades, com episódios de violência e perdas materiais. Neste mesmo sábado, centenas de milhares tornaram a se manifestar, cercados por um esquema de segurança mais robusto.
Em reta final de mandato e com índices de aprovação baixos, Macron chamou a atenção para as pistas que o atentado deixou e conclamou os franceses à coesão e à solidariedade.
Imagem meramente ilustrativa. Crédito da ilustrativa: Rádio Itatiaia


