Conforme mensagens recuperadas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, às quais a Folha de S.Paulo obteve acesso, o ex-banqueiro pediu a Luiz Rennó, à época diretor jurídico do Banco Master, que encaminhasse “um caso ou parecer” a Enrique Lewandowski, filho do ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski. Os diálogos indicam que o objetivo era dar sustentação ao contrato então em vigor entre a instituição financeira e o escritório de advocacia da família.
Ricardo Lewandowski comandava, naquele momento, o Ministério da Justiça do governo Lula (PT), posto que abandonou em janeiro deste ano. Antes disso, entre abril de 2023, mês em que se aposentou do STF, e fevereiro de 2024, quando tomou posse no governo, já havia atuado como advogado do Master.
O escritório de Enrique Lewandowski informou, em nota, que presta serviços jurídicos a diversos clientes, incluindo o Banco Master. “Com o Banco Master, o escritório celebrou um contrato de consultoria jurídica em agosto de 2023, com prazo de validade até agosto de 2025, quando os serviços foram encerrados. A partir de 2024, a consultoria passou a ter como foco assuntos fiscais e tributários”, declarou. “Os contatos do advogado Enrique Lewandowski se davam com o corpo jurídico do banco para discutir questões relacionadas a esses temas”, completou.
Às 21h de 9 de dezembro de 2024, Vorcaro enviou a primeira mensagem sobre o assunto. Escreveu a Rennó: “preciso. ajuda sua (sic)”, e encaminhou o contato de Enrique. Em resposta, Rennó quis saber: “Claro! Aqui o que está pegando? Chamar? Posso?”. Vorcaro então orientou: “Calma. Temos um contrato. Tem que chamar ele urgente. No banco. Vc se apresentar. Falar que trocou o diretor. Pedir desculpas que ficamos sem contato. E dá algum caso ou parecer para ele fazer”.
O ex-diretor jurídico confirmou que seguiria as instruções: “Já havíamos no passado informado! Mas irei chamar e alinhar”. Vorcaro insistiu: “Tem que chamar ele no banco. Fazer presencial. E já pedir algo”. Minutos depois, Rennó tranquilizou o ex-banqueiro: “Amigo, relaxa! Resolvido amanhã. Vc precisa de algo específico?”. Vorcaro respondeu, com um provável erro de digitação que significa “pra”: “Preciso passar algo. Ora ele”.
No dia 12 de dezembro, às 12h13, Rennó voltou a tratar do tema com Vorcaro. Mencionou o contato de Enrique Lewandowski e disse: “Aqui dominado! Quase bebemos cerveja aqui no banco! Vou dar sequência”.
O escritório dos Lewandowski e o Master encerraram o vínculo em agosto de 2025. Antes de assumir o cargo no governo Lula, em 17 de janeiro de 2024, o ex-ministro já havia se afastado da banca. A partir daí, quem passou a comandar o escritório foram sua mulher, Yara de Abreu Lewandowski, e Enrique Lewandowski.
Ricardo Lewandowski não se pronunciou sobre os diálogos que tratam do escritório do filho. Em janeiro deste ano, ao ser questionado a respeito da contratação do Master, o ministro aposentado afirmou que retornou à advocacia após deixar o STF em abril de 2023, período em que prestou consultoria jurídica ao banco e atendeu diversos outros clientes. “Ao ser convidado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para assumir o Ministério da Justiça e de Segurança Pública, em janeiro de 2024, Lewandowski retirou-se de seu escritório de advocacia e suspendeu o seu registro na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), deixando de atuar em todos os casos”, declarou na manifestação.
Contratar bancas de advocacia ligadas a parentes de ministros figurava entre as táticas jurídicas adotadas por Vorcaro no Master. Exemplo disso é o acordo de R$ 131 milhões firmado com Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro do STF Alexandre de Moraes. Laudo da PF concluiu que o próprio ministro promoveu alterações no contrato. À época, o escritório Barci de Moraes sustentou, em nota, que “o setor de compliance do escritório, como faz em outros casos semelhantes, solicitou informações ao ministro Alexandre de Moraes, na condição de marido da sócia diretora do referido escritório”.
Conforme mensagens recolhidas pela Polícia Federal e divulgadas pela Folha, Vorcaro ainda manteve contato com o instituto criado pelo ministro André Mendonça e com os filhos dos ministros Kassio Nunes Marques e Luiz Fux. Há, além disso, trocas de mensagens que sinalizavam proximidade com Benedito Gonçalves, ministro do Superior Tribunal de Justiça e atual corregedor do Conselho Nacional de Justiça.
Uma foto em que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, surge ao lado do dono do Master com um uísque na mão e um charuto, apareceu no meio das conversas por celular entre Vorcaro e o advogado Ciro Soares. De acordo com pessoas que acompanham as investigações, a imagem foi captada em 25 de abril de 2024, numa degustação de uísque realizada no George Club, clube privado do bairro de Mayfair, em Londres. A conta do evento teria ficado para Vorcaro.
Na última sexta-feira (18), a assessoria de imprensa da PGR afirmou que a foto é do evento de 2024, do qual o próprio Gonet afirmou ter participado, com várias outras autoridades. Também disse que “o próprio ministro André Mendonça, do STF, reconheceu que não há nada demais nas menções ao procurador-geral”.
