Quinta-feira, 22 de outubro de 2026 · Salvador, BA

Kiev e Moscou trocam ataques aéreos horas após sinal verde para novas negociações de paz

Apesar do sinal verde para negociações de paz, Kiev e Moscou intensificaram ataques aéreos nesta madrugada. O cenário é de tensão extrema, com Trump tentando mediar o fim do conflito enquanto pressiona Zelenski por concessões.

Kiev e Moscou trocam ataques aéreos horas após sinal verde para novas negociações de paz

Na madrugada desta quinta-feira (22), os dois lados da guerra na Ucrânia voltaram a mirar as capitais um do outro com ataques aéreos de grande porte, poucas horas depois de Moscou e Kiev concordarem em retomar as conversas pela paz. A ofensiva russa contra Kiev envolveu pelo menos 21 mísseis balísticos, disparados em três ondas, além de outros mísseis e drones contra várias regiões do país. O balanço é de duas pessoas mortas e 34 feridas.

O sistema energético ucraniano foi novamente o principal alvo, num momento em que o país se prepara para a chegada do inverno europeu. A escolha repete o roteiro de ocasiões anteriores: sempre que as negociações ganham corpo, os dois rivais elevam a intensidade das ações militares para demonstrar força diante dos mediadores americanos.

Já os comandados de Volodimir Zelenski lançaram uma ofensiva de escala sem precedentes na direção de Moscou, mobilizando ao menos 650 drones. Segundo o Ministério da Defesa russo, a totalidade dos aparelhos foi derrubada, mas as peças que caíram feriram duas pessoas em um município da área administrativa da capital.

Mantendo o padrão adotado antes de rodadas de conversas, Belarus mediou uma permuta de combatentes falecidos: russos e ucranianos realizaram a transferência de 252 e 25 corpos, respectivamente.

Ao longo desta semana, tomou corpo mais um esforço do governo de Donald Trump para pôr fim ao conflito — que ele havia prometido interromper em 24 horas quando ainda disputava as eleições de 2024. O enviado Steve Witkoff passou por Oslo na terça (20), onde se encontrou com Zelenski, e rumou no dia seguinte a São Petersburgo, para uma conversa mais demorada com Vladimir Putin. Foi nesse encontro que o líder russo afirmou estar disposto a reabrir o diálogo com os vizinhos, desta vez com os americanos presentes.

Após o sinal verde do mandatário ucraniano, projeta-se que a agenda seja fixada para a primeira metade de novembro, tão logo as equipes sejam estruturadas. Em contrapartida, o Kremlin manteve a postura contida: Iuri Uchakov pontuou que as novas propostas sinalizadas por Zelenski a Witkoff “ainda não nos satisfazem completamente”.

O emissário de Trump — acompanhado por videoconferência do parceiro habitual em negócios, Jared Kushner — deu sequência, na virada do republicano, ao movimento de aproximação com Moscou no conflito. Conforme o Financial Times, o representante norte-americano voltou a defender uma reunião sobre a Ucrânia costurada por Pequim, com Trump, Putin e Xi Jinping sentados à mesma mesa e sem Kiev, o que motivou queixa de Zelenski. O evento teria lugar em Shenzhen, na China, à margem do encontro dos países da Ásia-Pacífico marcado para o mês que vem.

Mesmo com esses acenos, conforme Witkoff, resta “muito trabalho à frente”. Uma fonte a par do tema em Moscou relatou à Folha que o ucraniano teria sinalizado ao emissário americano disposição para entregar o comando da porção leste do Donbass desde que forças da Otan se instalem na Ucrânia. Diante do público, Zelenski reconheceu até agora apenas o congelamento das linhas de frente — que asseguram a Moscou o domínio de quase todo o Donbass e de mais duas regiões —, ainda assim com o intuito de discutir o status posterior. Atualmente os russos controlam cerca de 20% do território ucraniano, e o Kremlin rejeita categoricamente a presença de tropas estrangeiras no país vizinho.

Esse roteiro já se repetiu incontáveis vezes desde que Trump voltou à Casa Branca, no ano passado. Em ocasiões anteriores, o republicano também usou a Ucrânia como moeda de troca para forçar Zelenski a ceder, e sempre acabou frustrado pela resistência de Putin. Desta vez, contudo, a postura americana tem um objetivo político: a disputa de novembro, na qual o partido do presidente arrisca perder a maioria no Congresso.

Com esse intuito, buscou conter a alta dos combustíveis — provocada sobretudo por sua ofensiva no Irã — ao firmar com Putin um acordo de aquisição de diesel. Assim, contorna a proibição europeia ao derivado russo, que forçou o redirecionamento do produto para outros destinos, entre eles Índia, China e Brasil. As investidas de Kiev contra refinarias da Rússia, no entanto, fizeram Putin suspender as exportações.

Atualmente, Trump pressiona o líder ucraniano para que suspenda suas manobras, deixando Zelenski em uma posição delicada. O governante norte-americano sinalizou sua insatisfação ao cortar os alertas prévios sobre disparos de mísseis balísticos russos, paralisar o envio de mísseis interceptadores adquiridos por países europeus para Kiev e restringir o uso de satélites militares no território sob invasão.

Imagem meramente ilustrativa. Crédito da ilustrativa: Expresso

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