Retrato da saúde nacional expõe contradição entre percepção e realidade
A pesquisa intitulada A saúde do brasileiro, hábitos de vida e o uso de tecnologia em diagnósticos médicos foi realizada pelo A.C.Camargo Cancer Center em parceria com a Nexus, Pesquisa e Inteligência de Dados, que ouviu mais de dois mil moradores de várias regiões do país. O cenário desenhado expõe uma contradição: enquanto 59% classificam a própria condição de saúde como ótima ou boa, os dados de peso e altura informados pelos próprios entrevistados mostram que 63% estão acima do peso recomendado — 37% com sobrepeso e 26% com obesidade. Apenas 35% se encontram na faixa tida como normal.
Excesso de peso aparece na lista de condições que elevam a probabilidade de pelo menos dez tumores distintos, casos de intestino, mama, endométrio, rim, pâncreas e esôfago. Em outras palavras: um fator de risco que poderia ser evitado atinge, sem alarde, seis em cada dez brasileiros.
Alimentação: um retrato melhor do que se supõe
Itens in natura — arroz, feijão, frutas e verduras — fazem parte da alimentação diária de dois terços dos entrevistados (66%), que os ingerem pelo menos seis vezes por semana. Entre os que estão acima do peso, esse hábito também se mantém: 70% das pessoas com sobrepeso e 69% das com obesidade relatam esse consumo, ao passo que, entre as de peso normal, o percentual é de 63%.
A situação se inverte ao se observar o outro extremo. Na parcela com sobrepeso ou obesidade, 8% ingerem ultraprocessados quase diariamente (seis ou sete dias por semana); já entre os que mantêm o peso normal, esse percentual sobe para 13%. Com frituras e doces, a tendência se repete, ainda que de forma menos acentuada.
Diante desses números, duas interpretações se abrem. A primeira sustenta que as recomendações sobre alimentação saudável deram resultado e que as pessoas acima do peso já promoveram ajustes na dieta, muitas vezes por indicação médica. A segunda aponta que o relato sobre o que se come pode não refletir o consumo real, já que as pessoas tendem a descrever a própria rotina de forma mais favorável do que ela de fato é.
O que realmente separa: a atividade física
Nenhuma dessas hipóteses, contudo, desloca o eixo da questão. A divisória entre quem carrega quilos extras e quem está na faixa ideal não é traçada pelo cardápio declarado, mas pela frequência com que o corpo se move. A pesquisa registra que 42% dos brasileiros nunca se exercitam. No conjunto, a atividade física comparece em 2,4 dias semanais, ao passo que os alimentos frescos aparecem em 5,7 dias – menos da metade.
E, diferentemente do que se verifica com a alimentação, nesse caso a escala caminha no sentido oposto: 54% das pessoas com obesidade jamais praticam exercícios, número que cai para 34% entre as que mantêm o peso normal. Já a prática quase diária recua de 24% para 10%.
Fica claro, portanto, que quem afirma zelar pelo prato ainda não tirou o corpo do lugar. Pode até ter assimilado a importância do que come, mas segue encarando o exercício como algo dispensável, e não como recurso preventivo dotado de efeito próprio, que age à revelia do ponteiro da balança.
Exercício como proteção independente
Manter-se fisicamente ativo de forma constante diminui a probabilidade de tumores como os intestinais e os mamários por mecanismos que vão além da redução de peso, incluindo a regulação dos hormônios, a resposta mais eficiente à insulina e o controle de processos inflamatórios de longo prazo. Não basta comer corretamente e continuar sedentário: existe uma proteção que só o movimento confere e que nenhum alimento oferece sozinho.
Depois que o diagnóstico chega, esse fator volta a pesar. Pacientes que iniciam o tratamento com a massa muscular preservada enfrentam melhor os efeitos colaterais e conseguem concluir o protocolo sem pausas com mais frequência – e, em oncologia, isso se reflete diretamente no desfecho.
Publicado em 2025 pelo New England Journal of Medicine, o estudo CHALLENGE foi o primeiro grande ensaio clínico randomizado a demonstrar que a atividade física altera o desfecho de quem já teve câncer. Em pacientes com tumor de cólon que seguiram um programa estruturado de exercícios após a quimioterapia, o risco de recidiva, de um novo câncer ou de mo$@#& diminuiu 28%, e a sobrevida livre de doença em cinco anos alcançou 80,3%, contra 73,9% no grupo que recebeu apenas orientações de saúde. O programa previa cerca de 150 minutos semanais de atividade física moderada — equivalente a três caminhadas rápidas de 50 minutos.
Barreiras socioeconômicas
Encerrar o debate culpando a falta de disciplina de cada um seria cômodo, mas os dados impedem esse caminho. Indagados sobre os entraves a uma boa alimentação, 29% citaram o custo de carnes frescas, frutas e vegetais. Esse percentual alcança 40% na faixa de renda de até um salário mínimo e recua a 10% entre os que recebem mais de cinco salários.
Com a prática de exercícios ocorre algo semelhante: nunca se exercitam 55% das pessoas com escolaridade até o ensino fundamental, frente a 31% das que têm ensino superior; e 48% das que ganham até um salário mínimo, contra 33% das que recebem acima de cinco. Nas faixas de menor renda, também costumam escassear tempo livre, segurança e espaços públicos apropriados para a atividade física.
O próximo passo da prevenção no país, assim, tem alvo definido. A alimentação saudável já foi incorporada ao repertório dos brasileiros e, o que é mais difícil, chegou de fato ao prato. Com o movimento falta fazer o mesmo: encará-lo como pauta de saúde, e não apenas de aparência, levá-lo a toda consulta, não só quando o peso preocupa – e criar as condições para que ele caiba na vida de quem hoje não dispõe de espaço nem de tempo para se exercitar.
O brasileiro já aprendeu a cuidar do prato. Agora precisa aprender a sair do sofá. E, dessa vez, sabemos que dá certo.
Antonio Antonietto é CMO e Diretor de Governança Clínica do A.C.Camargo Cancer Center.
