O papa Leão 14 foi submetido, no Hospital Gemelli, em Roma, a uma cirurgia que durou 90 minutos e retirou a parte de baixo do pulmão direito. Agora ele enfrenta a recuperação, período que faz voltar à tona uma pergunta nunca resolvida entre fiéis e estudiosos: na hipótese de o pontífice não conseguir cumprir integralmente suas atribuições, a quem cabe dirigir a Igreja Católica?
Segundo o Vaticano, o papa, de 71 anos, passou a noite sem intercorrências, e os médicos avaliam que ele vem se recuperando dentro do que era previsto. A equipe médica relata que o pontífice já caminha outra vez, voltou a se alimentar normalmente e cumpriu sessões de fisioterapia respiratória. Os exames de sangue e as radiografias realizados na quarta-feira (14) apontaram que a convalescença transcorre “normalmente”.
O câncer de pulmão foi anunciado na terça-feira (13), véspera da operação. Antes de o papa ser submetido à cirurgia, o responsável pela Sala de Imprensa da Santa Sé tinha dado como certo o deslocamento do pontífice ao Uruguai, à Argentina e ao Peru. Esse roteiro, porém, agora está indefinido.
O papa reúne, por ser a maior autoridade da Igreja Católica e também do Estado da Cidade do Vaticano, atribuições religiosas, administrativas e diplomáticas. Quando não há um pontífice exercendo o cargo por inteiro, cabe à Cúria Romana tocar a administração eclesiástica e, de modo mais direto, ao secretário de Estado do Vaticano — posto que hoje pertence ao cardeal Pietro Parolin.
Quando o papa Francisco passou por um problema de saúde parecido, em março de 2025, Filipe Domingues — que dirige o Centro Laico, em Roma, e é conhecedor das questões vaticanas — disse à BBC News Mundo que, caso o papa perdesse a consciência, praticamente nada mudaria. “Cada cardeal detém suas próprias funções no Vaticano e o secretário de Estado desempenha um papel muito importante neste contexto”, declarou.
Na prática, Parolin cuida da diplomacia e das questões administrativas, uma função que lembra a de um “primeiro-ministro” do Vaticano. Jornalistas quiseram saber se ele estava apreensivo com o estado de saúde do papa, e o cardeal respondeu: “Sim, porque certamente não esperava algo assim.” Contou ainda que, na noite de segunda-feira (12), teve uma conversa com o pontífice, o que lhe trouxe alívio.
“É algo que, graças a Deus, detectamos de imediato”, explicou Parolin. “E, normalmente, quando essas coisas são descobertas a tempo, podem ser resolvidas.” Até o momento, o secretário de Estado não se pronunciou sobre o diagnóstico divulgado nas últimas horas.
A autoridade de Parolin, porém, não substitui a do pontífice. “Ele não pode tomar decisões que correspondem ao pontífice, como, por exemplo, a nomeação de bispos”, destacou Domingues. Aprovar canonizações de novos santos e enviar mensagens aos fiéis às quartas e domingos são tarefas exclusivas do papa.
Existem mecanismos na Santa Sé para manter o funcionamento quando falta o seu líder, mas as normas apresentam brechas e isso pode tornar a situação mais difícil caso a saúde do pontífice piore por um período prolongado. Se houver mo$@#& ou renúncia, o direito canônico detalha passo a passo o processo de escolha do novo papa; o mesmo não ocorre no cenário em que o pontífice segue vivo, mas já não consegue desempenhar integralmente suas funções.
A Santa Sé pode, conforme o Cânone 335, tornar-se “vacante ou totalmente impedida”, mas o texto não define o que seria “totalmente impedida” nem como agir diante dessa situação. No caso dos bispos, as normas da Igreja são precisas: pelo Cânone 412, uma diocese entra em situação de “impedida” quando seu bispo fica impossibilitado de exercer a autoridade por enfermidade, exílio ou outra razão, e a condução passa a um bispo auxiliar ou ao vigário geral. Para o papa, não existe regra equivalente.
Em tese, caso a saúde impedisse um papa de continuar no cargo, restaria apenas a renúncia ao trono de São Pedro. O papa Paulo 6°, em 1965, enviou uma carta ao decano do Colégio de Cardeais na qual cogitava que, diante de uma doença grave, caberia ao decano e aos demais cardeais acolher sua renúncia. Francisco, por sua vez, revelou em 2022 ter redigido uma carta de abdicação, guardada para o caso de incapacidade por motivo médico.
Fica em aberto, contudo, o modo de acionar essa renúncia quando o papa já não consegue expressar a própria vontade, uma vez que a legislação canônica exige que a demissão papal seja “livre e manifesta”. Bento 16, ao contrário, comunicou ele mesmo a renúncia, em 2013, diante do público.
“Se o papa tivesse Alzheimer e chegasse um momento em que ele não pudesse mais tomar a decisão por si própria, alguém da Secretaria de Estado deveria levar a carta a público e apresentar um relatório médico”, explicou Domingues.
Uma proposta apresentada em 2021 por um grupo de especialistas previa que, se um papa viesse a ficar completamente incapacitado, o Colégio de Cardeais passaria a governar a Igreja e criaria uma comissão encarregada de reavaliar o estado de saúde do pontífice a intervalos regulares. O texto previa avaliações médicas semestrais e, na hipótese de se concluir que o papa não tem mais condições de seguir no posto, o Colégio de Cardeais poderia dar início a um processo de escolha do sucessor. Nada disso foi adotado pelo Vaticano até o momento, e a Igreja Católica continua sem um instrumento formal para enfrentar a incapacidade prolongada de um pontífice.


