Sexta-feira, 6 de novembro de 2026 · Salvador, BA

Zeptoverso: LHCb encontra evidência de decaimento raríssimo e abre caminho para explorar escala menor que o átomo

Cientistas do LHCb detectaram um decaimento raríssimo, que ocorre apenas uma vez a cada 10 bilhões de casos. O feito abre portas para explorar o zeptoverso, uma escala inimaginável de pequenas dimensões dentro da matéria.

zeptoverso

O anúncio foi feito em 3 de novembro e o achado procede do LHCb, detector instalado no Grande Colisor de Hádrons (LHC), estrutura que opera no CERN, nas cercanias de Genebra. Nunca antes um único experimento havia reunido pistas de um processo tão improvável, que ocorre na proporção de um caso em cada 10 bilhões. Esse processo é o decaimento batizado de “Bd para mu mu”, e o resultado aproxima os físicos do zeptoverso, faixa da natureza cujas dimensões são bem menores do que as de um átomo.

O trabalho foi conduzido por um grupo chefiado pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido. A caçada a esse fenômeno começou em 1984 e só agora produziu o padrão estatístico reconhecido como evidência. O LHC, equipamento que provoca colisões de alta energia, serve para investigar os constituintes da matéria.

Não se trata de universo paralelo: o zeptoverso nomeia um intervalo de distâncias cuja unidade de medida é o zeptômetro. Cada zeptômetro equivale à trilhonésima parte de um bilionésimo de metro, isto é, 0,000000000000000000001 metro. Conforme o comunicado da universidade, o LHC consegue sondar diretamente escalas da ordem de 100 zeptômetros. A meta dos cientistas é chegar a dimensões ainda menores, onde poderiam estar partículas que os equipamentos atuais não alcançam.

A equipe, para chegar lá, observa como partículas já catalogadas se transformam umas nas outras. A ideia é captar vestígios indiretos de partículas desconhecidas em fenômenos que podem ser medidos, entre eles a frequência com que determinado decaimento se repete. Os alvos escolhidos foram partículas que trazem um quark do tipo beauty – parentes próximos dos quarks que formam os átomos. Tais partículas surgem nas colisões do LHC e sobrevivem por aproximadamente um trilionésimo e meio de segundo até decair em outras.

Harry Cliff, do Laboratório Cavendish de Cambridge, que liderou o estudo, afirmou no comunicado da universidade: “Os físicos procuram por este tipo raro de decaimento desde 1984, antes de eu nascer”.

É exatamente a raridade que dá tanto valor ao fenômeno: partículas que ainda não conhecemos poderiam modificar a frequência com que ele ocorre. Essa frequência é medida com precisão pelos pesquisadores, que depois comparam o valor observado àquele previsto pelas teorias. Em 2024, o LHCb passou por uma atualização que ampliou o alcance da busca. Dados de 2024 e 2025 foram analisados pela equipe, que empregou aprendizado de máquina para distinguir os sinais desejados de outros eventos registrados pelo detector.

Os novos dados foram somados aos coletados entre 2011 e 2018, e o conjunto atingiu o nível estatístico exigido para evidência. As medições batem com o Modelo Padrão, a teoria que descreve as partículas fundamentais e suas interações. Logo, não se trata da descoberta de novas partículas, mas de uma ferramenta para perseguir seus efeitos em escalas cada vez mais ínfimas.

Esperada para meados da década de 2030, uma próxima atualização do experimento deve tornar a coleta de dados 10 vezes mais rápida. Com um volume maior de registros, os cientistas querem medir o decaimento com precisão superior e seguir avançando na investigação do zeptoverso.

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