Terça-feira, 27 de outubro de 2026 · Salvador, BA

Papa Leão 14 encontrará vítimas de abusos do clero em viagem à América do Sul

Em sua primeira viagem internacional após tratar um tumor, o Papa Leão 14 se encontrará com vítimas de abusos do clero na América do Sul. A iniciativa busca fortalecer o compromisso da Igreja com a justiça e a reparação às vítimas.

Papa Leão 14

O Vaticano confirmou nesta terça-feira (27) que o papa Leão 14 reservou espaços em sua agenda para ouvir pessoas que sofreram violência sexual e psicológica nas mãos de integrantes da Igreja Católica. Os encontros ocorrerão ao longo do giro que o pontífice fará por Uruguai, Argentina e Peru, entre 6 e 17 de novembro.

A informação foi divulgada pela assessoria da Santa Sé por meio de nota, na qual explica que as reuniões traduzem o anseio do papa de se colocar ao lado daqueles que carregam as marcas desse tipo de crime. O texto oficial não detalha em quais cidades os encontros vão ocorrer nem quem serão os participantes.

De acordo com o comunicado, Leão 14 quer atuar em conjunto com as vítimas para construir processos de restauração e assegurar que a Igreja siga sendo um ambiente protegido e sadio do ponto de vista espiritual. A nota não avança em prazos ou formas de acompanhamento.

O pontífice não fazia deslocamentos fora da Itália desde que os médicos identificaram um tumor no pulmão e ele precisou passar por uma intervenção cirúrgica — agora, essa será sua primeira viagem ao exterior. Na avaliação do arcebispo Paul Gallagher, ministro das Relações Exteriores do Vaticano, o caso altera de modo profundo a forma como os católicos passam a encarar a enfermidade e o próprio exercício do ministério petrino. “Isso muda completamente o cenário”, afirmou Gallagher a jornalistas reunidos em Roma, também nesta terça.

Segundo Gallagher, a pouca idade de Leão para os padrões papais e sua disposição física levavam parte dos católicos a tratá-lo como uma espécie de “Super-Homem”. O arcebispo completou: “A doença revelou que Leão é um pobre mortal como todos nós”.

Aliás, o enfrentamento dos abusos já orientava decisões tomadas pela Santa Sé. Em abril, o Vaticano anunciou que pagaria reparação às pessoas atingidas por um movimento católico peruano extinto no ano anterior, após a revelação de denúncias de violência sexual e psicológica atribuídas a alguns de seus líderes. A indenização não sairá dos cofres vaticanos: virá do patrimônio do grupo confiscado depois da dissolução.

Em 2025, apenas sete dias antes de falecer, o papa Francisco ordenou o encerramento do Sodalício de Vida Cristã (Sodalitium Christianae Vitae), entidade ultraconservadora que passou sete anos sob investigação do Vaticano. Já em maio de 2026, representantes da Santa Sé e lideranças regionais participaram de cerimônias públicas de pedido de perdão às comunidades prejudicadas — incluindo camponeses que tiveram suas terras usurpadas pelo grupo.

Antes do decreto de Francisco que selou o fim da organização, o próprio Sodalício reconheceu formalmente que seus crimes atingiram pelo menos 83 pessoas. A entidade, por sua vez, já havia desembolsado o equivalente a U$ 5,3 milhões (R$ 28,3 milhões) em indenizações parciais.

Já no mês passado, em viagem à França, Leão 14 recebeu pessoas que sofreram abuso sexual dentro da Igreja e se comprometeu a trabalhar para que episódios assim não se repitam. Durante todo o seu pontificado, Francisco tomou diversas medidas de combate aos abusos, cuja dimensão mundial se consolidou sob o papado que o antecedeu, o de Bento 16 — o qual deixou o cargo em 2013 por problemas de saúde e por não se sentir com forças para continuar.

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