Um uísque, gim ou vodca pode ser falsificado de maneira quase imperceptível: a garrafa parece legítima, mas o líquido interno pode conter substâncias perigosas. Para dificultar esse tipo de crime, a Diageo implementou no mercado brasileiro o Selo Drink Seguro, que permite ao consumidor verificar a autenticidade do produto usando apenas a câmera do celular.
O selo, que começou a ser distribuído em fevereiro, é aplicado próximo à tampa das garrafas, ao lado do selo de IPI. Não é necessário baixar nenhum aplicativo: ao apontar a câmera para o selo, o usuário é direcionado a uma plataforma onde uma inteligência artificial analisa a “impressão digital” do selo. Cada unidade possui uma identificação única, com mais de 27 trilhões de combinações possíveis. Se a autenticação for bem-sucedida, a tela exibe a mensagem “selo validado com sucesso”. Caso contrário, a recomendação é não consumir a bebida e informar os dados da garrafa à companhia, que pode repassá-los às autoridades.
“A confiança voltou ao normal, ao que era antes do metanol, mas existe um compromisso permanente de segurança para que o episódio nunca volte a acontecer”, afirma Paula Lindenberg, presidente da Diageo Brasil.
A tecnologia está presente em garrafas de destilados como uísques, gins, vodcas, tequila, rum e licor. Como ainda há estoque produzido antes da adoção do selo, o consumidor pode encontrar nas prateleiras tanto garrafas com o selo quanto sem ele. A expectativa da empresa é que até o fim do ano todas as unidades estejam identificadas.
André Muller, diretor de Vendas, explica que a ferramenta não substitui os controles de qualidade já existentes, mas funciona como uma barreira adicional contra a falsificação da própria embalagem — um tipo de fraude particularmente difícil de combater. A companhia não revela o valor investido. “É um investimento importante”, diz Lindenberg.
Os destilados são alvos atraentes para falsificadores por concentrarem alto valor em pouco volume. Uma garrafa de uísque de marca conhecida pode ser revendida no mercado clandestino por cerca de metade do preço original, ainda com margem para o criminoso. A fraude não exige embalagem nova: garrafas vazias são recolhidas em bares, restaurantes e até no lixo, e depois recebem novamente líquido, rótulo, tampa e lacre. Para quem observa rapidamente a prateleira ou recebe uma dose no balcão, a diferença pode ser praticamente invisível.
É nesse cenário que a tecnologia atua. “Uma coisa é copiar, outra é clonar”, afirma Mario Nicoli Netto, CEO da Securetrace, empresa que desenvolveu o sistema em parceria com a Diageo. Segundo ele, a tecnologia já é empregada em ambientes onde a identificação e a proteção contra falsificações são críticas, como documentos e cédulas. Netto afirma que a empresa é fornecedora do governo federal na área de páginas holográficas dos passaportes. “Do mesmo modo que o ser humano tem uma identidade única, cada produto também deve ter. É preciso diferenciar cada unidade, uma por uma.”
O especialista alerta que o selo não é visual: não basta identificar sua presença para se sentir seguro, é preciso escaneá-lo. São cinco segundos a mais no momento da compra. “A garrafa vai se ‘comunicar’ diretamente com você. É uma nova forma de consumir, com um novo hábito.”
A mudança também interessa aos bares. O proprietário de um estabelecimento pode fazer a verificação antes de colocar a garrafa em circulação e, se quiser, mostrar o resultado ao cliente. É o que pretende fazer o empresário Humberto Munhoz, dono de casas em São Paulo como o bar O Pasquim. “O cliente não vai olhar a nota fiscal no estoque. Mas ele pode pedir para escanear a garrafa que está no bar. Isso chancela ainda mais o compromisso com a segurança do cliente.”
Dados apresentados pela indústria indicam que a falsificação representa 4,7% do mercado de destilados. Essa é a parcela que mais preocupa pela possibilidade de colocar substâncias perigosas dentro de uma embalagem aparentemente legítima. O mercado formal convive ainda com sonegação de impostos, contrabando, produção sem registro e outras formas de comércio irregular que compõem uma cadeia ilegal muito maior.
A Diageo também mantém conversas com o poder público paulista sobre outras medidas, como uma proposta de certificação para bares e pontos de venda, diferente do selo colocado nas garrafas. O governo de São Paulo pretende criar um “selo de qualidade” para estabelecimentos que participarem de um programa de combate à falsificação de bebidas. Os comerciantes passarão por treinamentos e terão de cumprir protocolos sobre a origem da bebida e a emissão de nota fiscal.
Na esfera federal, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) aprovou um estudo que propõe mudanças na composição do etanol hidratado combustível para dificultar seu uso irregular na fabricação clandestina de bebidas. A substância tem sabor extremamente amargo e, segundo a avaliação da agência, poderia ser percebida por consumidores caso o etanol fosse usado na adulteração de bebidas.
A crise sanitária que atingiu São Paulo em 2025 começou a ganhar dimensão no fim de setembro do ano passado, quando autoridades passaram a investigar uma sequência de intoxicações associadas ao consumo de bebidas adulteradas. A Polícia Civil aponta que as bebidas alcoólicas adulteradas podem ter origem em uma mesma fábrica clandestina administrada por uma família no ABC Paulista. De acordo com a investigação, os suspeitos compravam etanol adulterado com metanol de dois postos de combustíveis da região — uma sobreposição de crimes, segundo a polícia. O metanol, altamente tóxico e proibido para consumo humano, é letal mesmo em pequenas quantidades.
A proprietária da fábrica está presa desde 10 de outubro de 2025. A dimensão do problema também expôs a conexão entre diferentes mercados clandestinos. A presença do crime organizado no setor de combustíveis já era uma preocupação das autoridades, inclusive diante de suspeitas de atuação de facções em postos, usinas e na cadeia de distribuição de etanol. O Brasil registrou 25 mortes confirmadas por intoxicação por metanol em bebidas adulteradas durante o ano de 2025, com mais sete mortes confirmadas pelas secretarias estaduais de Saúde em 2026 até meados de agosto.
