Nesta quarta-feira, quando o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, tomou a tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, dezenas de delegações deixaram o plenário. Repetiu-se o episódio do ano anterior, no contexto do conflito na Faixa de Gaza, e a comitiva brasileira esteve entre as que se retiraram. Nas galerias acima do salão, ao mesmo tempo, convidados e aliados de Tel Aviv manifestavam apoio ao premiê com aplausos e gritos, o que levou o presidente da Assembleia a pedir ordem antes que o pronunciamento começasse.
Ataques a opositores e menções a conflitos históricos marcaram o discurso. Abrindo sua fala, Netanyahu voltou-se aos presentes: “Se ainda há covardes que não deixaram o salão, o façam agora por favor”. Na sequência, rebateu o líder sírio Ahmed al-Sharaa, para quem as Colinas de Golã, sob ocupação israelense desde 1967, pertencem à Síria. “Senhor Al-Sharaa, os judeus estiveram nas Colinas de Golã desde o tempo de Moisés, você pode ler isso na Bíblia”, disse.
Como já fizera nos dois anos anteriores, o premiê lançou mão de recursos visuais. Para atacar o grupo libanês, mostrou um pager, igual aos detonados em operação contra o Hezbollah, e exibiu um aparelho de internet Starlink, de Elon Musk, a fim de sustentar que os iranianos são impedidos pelo próprio governo de se comunicar com o resto do mundo. Também equiparou o ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro de 2023, responsável por 1.200 mortes e pelo início da guerra em Gaza, aos atentados de 11 de Setembro nos Estados Unidos.
Segundo o relato, a guerra em Gaza, hoje arrasada pelas forças israelenses, já provocou a mo$@#& de mais de 73 mil palestinos. Quando da Assembleia do ano passado, o acordo de cessar-fogo com o Hamas ainda não havia sido aprovado por Israel, e vários países haviam anunciado em conjunto o reconhecimento da Palestina. Naquele momento, Netanyahu equiparou a iniciativa a “dar um Estado para a Al Qaeda a uma milha de Nova York depois do 11 de Setembro”.
Nesta quarta, o primeiro-ministro também criticou o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, afirmando que ele apoia o Hamas e terroristas. “Você falsamente, repetidamente, acusou Israel de genocídio. Você tentou me impedir de vir aqui, tentou me silenciar. Mas você não pode me silenciar ou silenciar a verdade. Aqui está uma verdade simples: Israel não cometeu genocídio, mas preveniu o genocídio”, disse. “Isso é exatamente o que o senhor Mamdani e seus amigos do Hamas teriam feito conosco”, acrescentou. “O dia em que os judeus eram vítimas indefesas e marchavam em direção ao abate acabaram”, completou.
Havia expectativa de que Netanyahu tratasse do prefeito. Críticas ao governo israelense e às ações em Gaza foram centrais na campanha de Mamdani, o primeiro muçulmano a ocupar o cargo em Nova York. Em julho, ele divulgou um vídeo em que dizia que, se o premiê fosse à cidade, seria detido, por causa do mandado de prisão expedido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) contra ele. Depois, voltou atrás e admitiu em público que não teria autoridade para efetuar a prisão.
O discurso também atingiu nações que, há pouco, sancionaram Israel por causa dos assentamentos judaicos em terras palestinas sob ocupação na Cisjordânia. “Acusam o pequeno país de Israel de colonialismo. E quem nos acusa, alguns na França, no Reino Unido. Meu deus do céu, eles inventaram o termo”, disse. Chamou os colonos de “cidadãos que respeitam a lei”, ainda que os registros de violência contra palestinos aumentem enquanto o governo autoriza licitações para novos assentamentos.
A exemplo de outros pronunciamentos feitos na tribuna da ONU, entre eles os de Lula e de Donald Trump, as declarações de Netanyahu não ficaram restritas à comunidade internacional: miraram também o eleitorado interno. Pesquisas indicam que Israel realiza em outubro eleições parlamentares que tendem a ser disputadas e a terminar sem maioria clara para qualquer um dos blocos, inclusive o do premiê. Levantamentos mostram, ainda, que o respaldo doméstico à guerra contra o Hamas permanece elevado no país.
Na cidade que recebeu o encontro, protestos contra Israel e contra o apoio militar dos Estados Unidos ao Estado judeu ocorreram do lado de fora da sede da ONU. Já o gabinete do premiê informou que o governo de Netanyahu bancou 500 outdoors e peças publicitárias favoráveis a Israel e contrárias ao Irã, instalados em Nova York.
