Durante a sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas realizada nesta quarta-feira (23), o presidente Masoud Pezeshkian subiu ao púlpito para denunciar que, no início do conflito, os Estados Unidos teriam atacado um centro educacional iraniano. “Vejam só, essas crianças; essas crianças mo$@#& sob bombas disparadas com armas utilizadas pelos Estados Unidos e por Israel”, declarou o mandatário ao citar a ofensiva que atingiu a localidade de Minab, situada na região sul do território iraniano.
Dados oficiais do governo iraniano apontam que a investida contra a unidade de ensino resultou no óbito de 120 alunos e 26 docentes. “Elas eram inocentes, não haviam cometido crime algum”, afirmou Pezeshkian. O presidente norte-americano, Donald Trump, havia classificado os iranianos como terroristas, e o líder iraniano respondeu: “Nós fomos as vítimas do terrorismo”.
O Pentágono declarou no início deste mês que a averiguação sobre o incidente permanece em andamento. Paralelamente, em setembro, um grupo da ONU dedicado à verificação de episódios dessa natureza apontou que a ação bélica pode ser enquadrada como crime de guerra. Em resposta, a Casa Branca declarou por meio de seu porta-voz: “A única parte neste conflito que cometeu crimes de guerra é o regime iraniano”.
Ao longo do pronunciamento, Pezeshkian afirmou que o Irã “jamais baixará a cabeça nem se curvará” e pediu que outras nações se unam na procura por uma estabilidade e paz autênticas, combatendo o que definiu como “intimidação”. Em reação aos comentários feitos por Trump na véspera, pontuou que o americano “precisa saber que a resistência do povo iraniano só aumentará diante de sanções, do aumento da pressão e da intensificação da intimidação”.
O líder iraniano também alertou para os riscos de um mundo que só entende a força: “um mundo sem poder é perigoso, mas um mundo que compreende apenas a linguagem da guerra e da intimidação não será seguro”. E acrescentou: “Não devemos construir um mundo no qual o poder militar substitua a legitimidade, o terrorismo substitua a política e as negociações, e a guerra substitua o diálogo e a diplomacia”.
Pezeshkian pediu cooperação internacional para garantir a paz. “O Irã estende a mão ao mundo; nós convidamos o mundo. Convocamos o mundo — não por fraqueza, mas por uma profunda convicção em nosso próprio poder e firmeza para cooperar e colaborar, e pela profunda crença de que ninguém nesta região terá segurança sozinho”, disse. “Ou a construiremos juntos, ou teremos de viver juntos sob a insegurança. Buscamos idealizar um futuro digno, no qual a segurança, a equidade, a justiça e a dignidade humana se tornem direitos inalienáveis para todos os povos, para todos os seres humanos”, prosseguiu.
Sobre o programa nuclear, o presidente iraniano foi enfático ao afirmar que seu país busca a tecnologia “para o progresso, não para ameaçar sociedades com armas”. “Para o nosso país, a tecnologia nuclear para fins pacíficos é parte integrante do nosso progresso”, declarou, mencionando que a nação demanda tais evoluções para setores como a produção de energia elétrica e a agricultura. “O Irã não aceita que a tecnologia nuclear fique à disposição exclusiva de alguns — de um punhado de nações. Não aceitaremos. Não curvaremos a cabeça nem renunciaremos a um direito que é inerentemente nosso”, acrescentou. E completou: “Dizemos isso claramente: nada de armas nucleares e nada de limitações à tecnologia nuclear para fins pacíficos. Nossa paz não virá do campo de batalha, mas é preciso garantir a segurança necessária ao povo e à nação do Irã”.
Pezeshkian argumentou que as capacidades defensivas são vitais para a salvaguarda da soberania nacional. “O Irã precisa ser poderoso para evitar ser ameaçado, para evitar que seu futuro seja ameaçado. Nossos sistemas defensivos foram construídos para que ninguém pense que o bombardeio de cidades iranianas ficará sem resposta. É por isso que dispomos desse poder militar para defesa”, justificou. Segundo fontes diplomáticas, o órgão de controle atômico da ONU solicitou, no começo deste mês, que a organização puna o governo iraniano por ignorar regras de segurança voltadas a conter a proliferação de armamentos atômicos.
Em Nova York, o presidente iraniano também abordou a questão do Estreito de Ormuz. Segundo ele, nenhuma nação poderá usar a via navegável para “impor suas agressões”. “Não podemos permitir que alguns tenham livre acesso e obtenham benefícios de uma via navegável enquanto, ao mesmo tempo, usam essa via para nos impor agressões, para nos impor insegurança e para nos impedir o acesso às nossas próprias águas”, afirmou. “Eles bloqueiam nosso acesso à nossa própria via navegável”, adicionou. Apesar disso, declarou que busca cooperação para a segurança regional: “O Irã não vê seus vizinhos como rivais em termos de segurança”.
A movimentação marítima em Ormuz, artéria logística responsável por cerca de 20% do transporte mundial de óleo bruto, sofreu retração acentuada desde que os confrontos se iniciaram em fevereiro. As sanções militares impostas pelos EUA sobre portos iranianos foram reativadas em julho, após a interrupção do acordo de cessar-fogo provisório. O Comando Central americano notificou, na segunda-feira (21), que suas unidades navais realizaram o desvio de 110 embarcações mercantes para assegurar o rigor do bloqueio.
