Uma onda de reações políticas tomou conta do país logo que veio à tona a informação de que Flávio Bolsonaro (PL) articulava com segmentos religiosos de orientação fundamentalista a retirada, caso vencesse a disputa eleitoral, do reconhecimento de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil. Várias lideranças vieram a público se posicionar, e o tema passou a dominar as redes sociais nas horas que se seguiram.
A ex-ministra do Planejamento e postulante ao Senado por São Paulo, Simone Tebet, está entre as vozes que vieram a público. Em uma imagem publicada por ela, aparece em oração na Basílica de Nossa Senhora Aparecida, acompanhada da mensagem: “Que Nossa Senhora Aparecida proteja o Brasil.”
Já o vice-presidente Geraldo Alckmin usou o Instagram nesta sexta-feira (25) para afirmar que o governo do presidente Lula manterá a proteção às tradições religiosas e o respeito a todas as religiões. A declaração foi motivada, segundo ele, por mensagens de católicos preocupados com as notícias que circulam desde quinta-feira (24).
“Tenho recebido mensagens de católicos preocupados com os rumos do país e com as notícias lamentáveis que estão circulando desde o dia de ontem”, escreveu o vice-presidente. Ele acrescentou: “Preciso esclarecer que enquanto o presidente Lula e eu estivermos governando esse país, as tradições religiosas, tão sagradas para as famílias brasileiras, estarão protegidas e preservadas.”
Alckmin ainda sustentou que o país deve manter a convivência respeitosa entre credos distintos e preservar as heranças do catolicismo. “Defendemos que o Brasil é um país que tem respeito por todas as religiões e capaz de conservar pacificamente as tradições católicas”, declarou.
O que deu origem à confusão foi a circulação de posts que ligavam o nome de Flávio Bolsonaro a uma iniciativa legislativa antiga, cujo objetivo era mudar como a lei reconhece Nossa Senhora Aparecida enquanto Padroeira do Brasil. Essa proposta, porém, não saiu da pena do candidato. Quem a assinou foi Victório Galli, à época deputado federal, por meio do PL 2.623/2007, que propunha trocar, no texto legal referente ao feriado de 12 de outubro, a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O projeto acabou sepultado pela Câmara em 2008.
Pastor evangélico, Galli fez parte da bancada evangélica enquanto ocupou uma cadeira na Câmara e, entre fevereiro e junho de 2019, atuou como assessor especial da Presidência no governo de Jair Bolsonaro. Neste novo episódio, sua ligação política com o ex-presidente veio outra vez à tona.
Flávio Bolsonaro veio a público na quinta-feira (24) para garantir que não existe, em seus planos, qualquer intenção de tirar de Nossa Senhora Aparecida o status de Padroeira do Brasil. A GloboNews, que tinha relacionado o assunto à corrida eleitoral, acabou corrigindo depois a informação que se espalhava pelas redes sociais.
Setores da Igreja Católica também entraram no debate. O cardeal Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus, gravou um vídeo para o Regional Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) no qual classificou o voto como um pilar da democracia. Na mesma linha, o bispo auxiliar Samuel Ferreira saiu em defesa da “soberania do Brasil, da nossa Amazônia e de nossas riquezas e bens”.
Em homilia no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, Dom Orlando Brandes, arcebispo emérito de Aparecida, disse que os brasileiros devem escolher seus candidatos de acordo com a própria consciência e pensando no bem comum. “Vamos defender a nossa soberania. Nenhum poder de fora, seja quem for, não deve mandar aqui. Aqui é nossa soberania, aqui é nossa casa, aqui é nossa pátria”, declarou.
Desde o começo de setembro, a CNBB leva adiante, por intermédio da Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora, a série “Eleições 2026: Ação Sociotransformadora por Soberania”, que se apresenta como um esforço sem vínculo partidário dedicado a estimular a participação democrática e a debater ingerências estrangeiras na política nacional.
Ao se manifestar nesta sexta-feira, Alckmin evitou mencionar nominalmente Flávio Bolsonaro, Victório Galli ou o projeto de 2007. O vice-presidente preferiu centrar o discurso na promessa de que as tradições religiosas seguirão preservadas tanto em seu mandato quanto no de Lula, reiterando o compromisso com o respeito a todas as religiões praticadas no país.
